terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ciência como negócio, crise dos átomos e tecnologia: com a palavra, Fábio Gandour


Quando se fala em Ciência no Brasil, a imagem que (ainda) vem à mente da maioria é de caras estranhos e introspectivos usando impecáveis jalecos brancos e observando atentamente alguns tubos de ensaio, engenhosamente suspensos por uma parafernália de instrumentos. Fábio Gandour, cientista-chefe da IBM no Brasil, é exatamente o oposto dessa imagem. Descolado e comunicativo, o médico (sim, formado em Medicina), lembra mais a figura de um evangelista que tem como missão aproximar a ciência das pessoas e mostrar que a tecnologia, em seu sentido mais amplo, pode ajudar a transformar a realidade.
Ele ministrou uma palestra na última semana no Sebrae/PB, intitulada "O que do amanhã já se pode saber hoje". O evento integra as ações do Sebrae Paraíba na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e lançou no Estado a 3ª Busines IT South America (BITS), evento de tecnologia ligado à CeBIT, que acontecerá em Porto Alegre (RS) de 14 a 16 de maio de 2013. Como o evento foi pertinho da nossa redação, o Administradores.com não poderia perder a oportunidade de entrevistá-lo.
"Nos últimos vinte anos, minha missão tem sido de colocar a tecnologia para funcionar a serviço das pessoas; cada um tem as suas necessidades tecnológicas", diz Gandour. E foi a tecnologia quem ocupou todo o espaço durante a apresentação, servindo como elo para debater desde inovação até demografia e sustentabilidade.
Um dado curioso se refere ao que poderia ser chamado de "crise dos átomos". Todos nós estamos fartos de conceitos "verdes" sobre consumo sustentável, sacolas plásticas e afins. Mas, conforme lembra Gandour,o número de átomos constante no planeta é constante e equivale a 10⁵⁰. "Se o número de pessoas continuar a crescer no ritmo de hoje, em 2050 teremos uma população de 12 milhões de habitantes. Precisamos ser sustentáveis, porque caso o consumo per capita também se mantiver constante ou aumentar, vão faltar átomos", simplifica. Veja abaixo a entrevista completa.

Você fala muito sobre ciência como negócio, mas também falou sobre ciência de serviços. Esses conceitos são a mesma coisa? Qual a diferença entre eles?

Não, não. Ciência de serviços é uma ciência nova, tem 6 anos de vida. Para uma ciência, ela é extremamente jovem, e ela procura criar conceitos com fundamentação teórica para sustentar a evolução da prestação de serviços no mundo todo. A ciência como negócio é uma criação minha. Eu percebi que a evolução da ciência no mundo, desde o início da história do homem, empurrou a prática científica na direção da academia, da universidade. Lá a ciência é praticada com muita propriedade, foi com essa ciência acadêmica que os horizontes do homem se ampliaram, o conhecimento humano cresceu. Mas essa ciência acadêmica é uma ciência doutrinária; ela tem dogmas, ela tem liturgias, ela tem credos. Esse modelo é muito bom, mas ele serve lá na academia. Nos negócios, que têm de lidar com uma complexidade cada vez maior, eu preciso de um outro tipo de ciência. Daí criamos esse conceito de ciência como negócio que se beneficia da ciência como doutrina, usa tudo o que a ciência como doutrina fez, mas tem objetivos um pouco diferentes. É o objetivo de fazer pesquisa científica que produza resultados com impactos positivos nos negócios dos seus financiadores. Essa é a ciência como negócio.

Como a ciência doutrinária e a ciência como negócio vão conviver?

A ciência doutrinária vai continuar se desenvolvendo para expandir aquilo que a gente chama de ciência pura. E todos os conceitos, todas as descobertas, todas as conclusões que a ciência acadêmica fizer, a gente tá pronto para aplicar, para fazer pesquisa aplicada dentro do modelo de ciência como negócio. Então elas vão conviver muito bem.

Algumas empresas grandes, multinacionais, têm recursos para financiar uma infraestrutura própria de pesquisa e educação, elas criaram as próprias faculdades. Isso já seria um princípio da ciência como negócio?

Eu acredito que sim, mas as empresas grandes têm condição de fazer esse financiamento da sua atividade científica. As empresas médias e menores, sabe o que elas têm que fazer? Elas têm que ir nas universidades onde existem professores dispostos a desenvolver modelos de ciência aplicada. Tem muitas. Eu tenho certeza que aqui na Paraíba devem existir, nas universidades, professores que um dia fizeram ciência pura e hoje estão dispostos a desenvolver ciência aplicada.

Você afirma que o mundo pode passar por uma espécie de "crise dos átomos", por conta do crescimento populacional e do consumo. Na sua opinião, como a tecnologia pode ajudar a superar ou evitar essa crise?

Eu acho que a gente precisa usar a tecnologia como instrumento de conscientização, que pode ser feita com ou sem tecnologia. O que eu estou fazendo aqui, e deixando isso claro, é uma tarefa de evangelização, de conscientização a respeito dos limites dos recursos que o planeta tem. Tenho certeza que o povo saiu daqui hoje pensando nisso. Os recursos do planeta são finitos, nós temos que usá-los com propriedade. Não vejo outra forma a não ser essa. E a tecnologia ajuda a disseminar essa informação da melhor maneira possível.

Você falou que todos os objetos dotados de propriedades de estado, como luz, portas e eletrodomésticos, serão todos conectados por uma rede como a Internet. Isso já acontece? Em quanto tempo isso pode adquirir escala?

Depende do local. Mas nos centros de maior desenvolvimento, num horizonte de três a cinco anos a gente vai começar a trombar com coisas que se movimentam sozinhas, mesmo sem a gente dar ordem, que elas têm sensores, os sensores detectam o estado conectados a um atuador e o atuador muda esse estado.

Mas o ser humano vai poder ser "controlado" dessa maneira também?

Essa é uma pergunta difícil. Eu espero que não, e faço tudo para que isso não aconteça. 
Eber Freitas


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